Análise do Agendamento e Enquadramento de Notícias Esportivas em Meios de Comunicação de Massa

Para o sociólogo alemão Niklas Luhmann o que sabemos sobre a sociedade em que vivemos ou o mundo que nos cerca, sabemos através dos meios de comunicação de massa. Dessa forma é possível pensar que através de um estudo sobre as representações nos meios de comunicação (agendamento/enquadramento) podemos desvendar as ideologias tanto explícitas quanto implícitas da sociedade à qual estas mídias estão inseridas. Ademais, talvez seja possível focar em um tópico em específico que sirva como um reflexo – ou um microcosmo – dessa sociedade e suas ideologias.

Tal qual o atual formato dos meios de comunicação de massa (ver Tim Wu), o esporte que conhecemos hoje em dia também pode ser considerado como uma tradição inventada no final do Século XIX e início do Século XX na Europa Ocidental (ver Eric Hobsbawm). Ao mesmo tempo em que estas duas manifestações populares se sedimentam durante o século anterior, elas representam opostos em um continuum onde meios de comunicação refletem o simbólico e esporte, o físico (ver David Rowe). Na medida que estes opostos se sedimentam eles se tornam indispensáveis um ao outro numa relação simbiótica de co-existência. O esporte só é o que é por causa dos meios de comunicação de massa; e o oposto também é verdadeiro. Para Garry Whannel essa relação simbiótica advém do fato de que ambos servem por entreter o público e criar um senso de comunidade imaginada (ver Benedict Anderson).

De certa forma, esporte se torna um dos conteúdos – quiçá o – mais importante para os meios de comunicação de massa. Isso está relacionado ao fato de que esporte como conteúdo i) consegue atrair inúmeros interessados; ii) as regras são de fácil compreensão; iii) e assim passíveis de serem traduzidas para outras culturas; iv) barato de se produzir como conteúdo em relação a outros programas; v) envolve drama real; vi) que é teatralizados por indivíduos (por exemplo atletas) com suas vidas particulares/privadas; vii) provem narrativas onde vilões e heróis são construídos; viii) se tornando um condutor natural para a promoção dos valores idealizados de um capitalismo competitivo que celebra eficiência e meritocracia (ver Steven Jackson).

Mas quais seriam estas ideologias tanto explícitas quanto implícitas que o agendamento e enquadramento de notícias esportivas refletiriam?

Usando algoritmos de machine learning (k-NN, Deep Learning, e Naive Bayes) e mais de 60.000 notícias (Março a Julho 2019) coletadas automaticamente dos seguintes meios de comunicação de massa – Daily Mail, Daily Mirror, The Independent, The Guardian, BBC Sport (Reino Unido); ESPN (Estados Unidos); L’Equipe (França); Olé (Argentina); Marca (Espanha); e Gazzetta dello Sport (Itália) – o meu argumento é de que os padrões de agendamento e enquadramento servem por criar um sexto filtro editorial (ver Edward Herman e Noam Chomsky) que eu chamo de viés cultural-esportivo nacional.

Inicialmente o que é possível perceber (ver imagens abaixo) é a existência de um esporte dominante (>50%) em 7 dos 10 meios de comunicação de massa analisados. Nestes 7 meios de comunicação onde existe uma hegemonia de uma atividade esportiva sobre as demais encontramos futebol variando entre 58% (The Guardian – Reino Unido) e 87% (Olé – Argentina) do total de notícias no período analisado. Nas três outras mídias temos futebol representado em 48% (L’Equipe – França), 38% (BBC – Reino Unido), e 11% (ESPN – Estados Unidos) do total de notícias. Há de se supor que os resultados tanto para L’Equipe quanto BBC possam refletir o momento da coleta de dados, onde a realização de Roland Garros e Wimbledon contribuiu para um aumento de notícias sobre tênis (10% – L’Equipe; 19% – BBC).

É também interessante salientar como alguns esportes se fazem presentes ou ausentes por completo dependendo do meio de comunicação – e em particular o país – que analisamos. Por exemplo, temos na Itália (Gazzetta dello Sport) Motor Racing (carros e motos) aparecendo como a segunda atividade mais representada, enquanto que Boxing figura entre os 5 esportes mais representados em 3 dos 5 meios de comunicação no Reino Unido (The Independent, Daily Mirror, e Daily Mail), e Cricket em todas os meios (BBC, Daily Mail, Daily Mirror, The Guardian, The Independent). No caso do L’Equipe – e de certa forma no da ESPN – existe uma distribuição maior entre as diversas atividades esportivas representadas o que pode supor de que estes meios abranjam uma base maior de leitores (broadcast), o que reflete um campo esportivo maior e mais diverso em sua composição sócio-econômica (ver Pierre Bourdieu).

Essa hegemonia também é encontrada quando analisamos o gênero. Olhando os dados abaixo do The Independent (Reino Unido) [essa análise reflete o período de Maio 2019 a Maio 2020] nota-se que esporte masculino representa no mínimo 77% do total de notícias – onde o normal é ser praticamente 95%. Não obstante, existem alguns picos onde esporte feminino recebe uma maior atenção como nos períodos de Junho e Julho de 2019 – muito provavelmente por causa daqueles eventos elencados.

Essa hegemonia – tanto de um esporte quanto de um gênero – é o que eu chamo de viés cultural-esportivo nacional que se dá pela consolidação de uma episteme (ver Michel Foucault) que existe e se perpetua através da produção mecânica repetitiva de notícias onde o conteúdo se torna raso e pouco importante (ver Walter Benjamin). Esse padrão hegemônico não somente reproduz e reforça uma ideologia capitalista competitiva, como também serve por esconder outras possíveis práticas corporais/esportivas. De certa forma esse padrão hegemônico é a expressão máxima da comodificação da díade esporte-meios de comunicação de massa onde a repetição a exaustão de notícias sobre um esporte e um gênero estimula uma padronização que possivelmente reduz custos e aumenta o lucro desses meios de comunicação.

Talvez, o que vemos não seja os meios de comunicação de massa meramente noticiando eventos esportivos, mas seja algo semelhante ao que Daniel Boorstin chama de pseudo-eventos – os meios de comunicação de massa criando estes próprios eventos.

Ou melhor: criando e cristalizando um padrão de consumo cultural hegemônico onde todos nós somos ensinados desde a infância a apreciar somente um esporte e um gênero.

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